quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

MEU AVÔ


Eis o retrato do avô que não conheci
na maldura de quase um século.
Fico pasmo a contemplar tão ilustre figura.
Traços delineados, elegantes,
bigode cerrado,
uma aureola de intelectual,
um homem importante
pra morrer tão cedo.

Contam que era funcionário público
em Portugal.
Ferroviário,
Monarquista,
Vítima da revolução republicana...
Frustrados nos seus ideais,
às escuras, como um peregrino,
na companhia da esposa
e de iniciante família,
fugiram para o Brasil.

Eis o retrato
do avô que não conheci.
Imigrante por circunstâncias políticas,
revolucionárias...
Um herói sem medalhas,
um desbravador de três sertões no Brasil,
um guerreiro do machado e da enxada
nos tempos dos cafezais.

Sabe-se que foi um lutador:
De servente de pedreiro a condutor de bondes...
colono nos cafezais paulista,
sitiante próspero em terras paranaense.

Um homem de refinada cultura,
de extrema vocação artística.
Um músico instrumentista impecável,
amante da guitarra, do fado e dos livros.
Pai exemplar de numerosa prole.

Eis o retrato do avô que não conheci
na moldura de quase um século.
Uma relíquia histórica,
um semblante sério sem sorriso,
com o meu olhar fixo no seu olhar...
Sinto-me herdeiro da mesma luta,
numa batalha que ainda mal começou.

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