quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

IRMÃOS DA ROÇA


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Sou do tempo
em que as lamparinas
cheiravam a cabelos
de crianças chamuscados.

Sou do tempo
em que as noites de pirilampos
ofuscavam o brilho das estrelas
e a relva orvalhada
era uma divindade matinal.

Sou do tempo em que as romarias de maio,
eram peregrinações calorosas.
Santa Maria!... Quanta ladainha!...
Muitos dos que oravam fervorosamente
hoje rezam em paz no céu.

Quanto tempo já se passou.
Para onde foram:
Os macacos,
as maritacas,
as jandaias,
os guaches...?
Só restou o sabiá
que ainda canta
no galho torto
da última paineira.

Que saudade da roça!
A chuva jorrava nos milharais
que cheiravam a melancia.
Os roceiros se agrupavam
no ranchinho de sapé
a beira do carreadouro
e no ritmo da chuva
bailava a prosa caipira.
As espigas de milho,
bonecas douradas,
também bailarinas
eram acariciadas pelo vento.
Os trovões estremeciam os morros
e a chuva caia suavemente.

Trinta anos já se passaram.
O caminho do morro
não leva mais ao cafezal.
Da laranja rosa
mais doce que o mel
não se plantou a última semente.
O sino da capela nunca mais tocou,
ficou mudo o alto-falante...

Meu Deus!
Trinta anos já se passaram.
Ainda sonho com as flores silvestres,
ainda rolo pedras no caminho.
O que foi feito:
da enxada,
do machado,
da foice...?
As máquinas invadiram os campos,
os minifúndios desapareceram
e os irmãos da roça que eram tão felizes...
Hoje, são miseráveis bóias-frias.

CASINHA PEQUENA


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Casinha pequena,
casinha pequena.
Ao lado da bica d’água,
perto de um riacho
onde as saracuras cantavam:
Quebrei três potes,
quebrei três potes...
Quantos potes as saracuras
teriam quebrado
na cabecinha tenra
do menino poeta?

Casinha pequena,
casinha pequena.
Ladeada pelo paiol de milho
e o forno caipira
onde um pão caseiro fumegava...
Que gostosura!
Quanta fartura!

Casinha pequena,
casinha pequena.
A última da colônia.
Jamais me esquecerei
do fogão de lenha,
do banco de madeira,
das lamparinas
e do colchão de palha.

Casinha pequena,
casinha pequena.
Os porcos grunhiam no chiqueiro,
as galinhas cacarejavam no terreiro,
as vacas mugiam no curral
e o vento soprava
nos galhos da paineira.

Casinha pequena,
casinha pequena.
Tão aconchegante,
tão modesta...
Do tamanho do mundo
hoje é a minha saudade.

Casinha pequena,
casinha pequena.
Os ingratos
que te levaram ao chão
destruíram sem piedade
um marco histórico do poeta.

MEU CÉU AQUI NA TERRA

Juro que nasci num recanto abençoado
 onde a simplicidade brotava do sorriso do povo
 e a sinceridade nortearam os meus passos
 pelos caminhos da inocência.

Lá fui um menino parceiro da natureza.
Amei a minha terra
 como quem cultiva flores perfumadas
 nos jardins dos sonhos.

Desfrutei de cada riacho
de cada morro,
de cada pedra,
de cada árvore...
Eu era como se fosse um pássaro cantor
 bicando com suave doçura
 deliciosos frutos silvestres.

 O horizonte era o meu limite.
 Cada tio, um professor.
 Cada idoso, um livro de sabedoria
 Nessa escola da felicidade aprendi a ser poeta.
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LEMBRANÇAS BUCÓLICAS


Ainda me lembro
do velho carro de bois,
do rangido sonoro das rodas
como um violino desafinado
por estradas pedregosas.
Era um choro chorado.
Era um trabalho penoso.
Lá iam os bois perfilados:
_ Oi Canário!... Vamos Dengoso!...
_ Era a voz harmoniosa do carreiro.

Ainda me lembro
do moinho de fubá,
da paisagem bucólica
entre o riacho e o rochedo,
na grota d’água arborizada,
em meio ao verde
dos musgos umedecidos
reinava a roda d’água preguiçosa.
Era um recanto paradisíaco,
era o reino sagrado dos tico-ticos,
antigos fregueses de fubá.

Ainda me lembro
do engenho de cana,
de rudes formas bizarras.
Os burros sempre atrelados
giravam, giravam em círculo,
formava-se uma cascata
de garapa cheirosa
diretamente para o mundo
das guloseimas.

Ainda me lembro
do solitário monjolo,
das batidas compassadas,
ora socando café,
ora descascando arroz,
num tempo sem fim.
Puf... Puf... Puf...
Como as batidas
do meu coração.

JARDINS DAS TIAS


Nos jardins das tias
reinavam os lírios,
as rosas.
os cravos,
as hortênsias,
as margaridas,
as dálias...

Eram tantas as flores!
Flores do campo,
flores do mato...

Nos jardins das tias
as borboletas bailavam
na sinfonia do vento...

Nos jardins das tias
os beija-flores
beijavam com suave doçura,
a virginal inocência
escondida no Planeta Terra...

GUERRA FRIA


Como as pombas
que retornam ao pombal.
Como as cigarras que cantam até morrer.
Assim era minha palpitante rotina
e meus mimosos anos bailavam maneiros
desdenhosos, como altivos verões,
no céu de mansas andorinhas.

Nem sabia,
mal podia imaginar
que nos bastidores
da política universal
traçavam-se os destinos
da humanidade.

Era eu e os que comigo conviviam
espécies singelas de rara inocência.
amávamos com ninguém o nosso rincão.
Até que, transfiguraram-se os crepúsculos
das minhas tardes matreiras e pueris.
Em tudo se liam os rumores
de novos tempos funestos.
Até nos lábios dos tios preferidos
desenhavam-se as ruínas e os horrores
da Terceira Guerra Mundial
que seria o fim da humanidade.

Lá eu queria saber sobre:
capitalismo,
socialismo,
satélites artificiais,
bombas nucleares...

Lá eu queria saber
se Estados Unidos
e União Soviética
eram inimigos mortais...
Se na minha terra
éramos todos iguais...

Lá eu queria saber sobre:
Subdesenvolvimento,
alta tecnologia,
alta produtividade,
indústria de ponta,
era da informática,
em que onda andava o mundo,
pois a minha terra
era tão bela
revestido pelo verdes cafezais...

Ah! Como tinha rima e poesia
naquelas noites estreladas.
Da relva mística orvalhada
decolavam-se para os sonhos marotos
milhares de pirilampos atrevidos.
Ao som de um violão plangente
um caboclo mal amado,
lamentava as suas mágoas
diante do sorrateiro luar prateado...

Jamais poderia aceitar
que os monstros do capitalismo
e do socialismo
tivessem a ousadia
de mudar a paisagem de minha terra
que era uma preciosidade Divina.
Era o meu berço,
meu abençoado lar...
As riquezas brotavam
dos morros arredondados.
Das mãos calejadas dos roceiros
comia-se o maná da vida.

Não!...
Eu não era a única criança
a desfrutar daquele paraíso,
havia um exército de meninos,
todos armados de estilingues nos pescoços,
estávamos prontos para a guerra...

Mais que guerreiros eram nossos
céus e terras encurralados
naquele encantado horizonte
que morria com desdém
nas cristas dos morros.
Na mira de olhares inocentes
os nossos asseiose
ra o de perpetuar os sonhos.

Também aprendi
nos meus mimosos anos
que sem Deus,
sem religião,
sem pátria,
sem família
torna-se o homemo pior dos animais.

Na minha terra abençoada
a vida jorrava em abundância.
Uma alegria contagiante
misturava-se com bandos
de borboletas coloridas...
Se as borboletas
buscavam nas flores uma doce vida...
Eu buscava no meu bairrismo
uma razão para não acreditar
no poder destruidor
das malditas aramas nucleares!...

ESPANTALHO


Espantei borboletas avoantes
nos jardins primaveris.

Espantei cigarras estridentes
nas árvores centenárias.

Espantei grilos seresteiros
no canto escuro do quarto.

Espantei fantasmas tenebrosos
no labirinto do eterno medo.

Espantei sonhos pueris
e fiz a minha tempestade adulta.

JOGO DE BOLA


Nas manhãs domingueiras
de minha terra hospitaleira
toda a criançada jogava bola.
Era um jogador para cada lado
no campinho esburacado
o sol queimava na cachola.

Como se fosse um formigueiro
todos corriam o campo inteiro.
atrás da bola formava um batalhão.
Quando alguém tropeçava
a confusão aumentava
com tantos corpos caídos no chão,

Era só um tremendo alarido,
cada moleque tinha seu apelido:
Pé de Boi, Sabugo,
Cabeça de Balaio, Cidola...
A partida durava o dia inteiro,
todos eram atacantes,
ninguém era o goleiro.
O pior é que faltava espaço
para a danada da bola.

BATALHÃO DE MENINOS


Naquele reino encantado,
ninguém era filho de empregado,
ninguém era filho de patrão.
Éramos todos iguais!...
Todos iguais!...

De tantos meninos que éramos
formávamos um imenso batalhão
a correr pelos campos,
a brincar com bolas de meias.
Éramos tão felizes!...
Tão felizes!...

Naquele fantástico paraíso
ninguém cheirava cola,
ninguém era trombadinha.
Éramos menores abençoados!...
Menores abençoados!...
Quase imortais.

MENINO DA ROÇA


Menino de estilingue no pescoço,
no mato as arapucas,
na cabeça o ribeirão...

Menino da roça,
voaram pra longe os passarinhos,
era primavera,
quase verão.
Ficaram os morros desbotados,
desnudos,
maltratados
e no redemoinho do vento
foram-se as ilusões.

Menino da roça,
maltrataram a tua estrada,
alongaram teu destino.
Foi o pó da saudade
que cicatrizou tuas feridas,
foi a brisa da madrugada
que te fez poeta na cidade.

MEU AVÔ


Eis o retrato do avô que não conheci
na maldura de quase um século.
Fico pasmo a contemplar tão ilustre figura.
Traços delineados, elegantes,
bigode cerrado,
uma aureola de intelectual,
um homem importante
pra morrer tão cedo.

Contam que era funcionário público
em Portugal.
Ferroviário,
Monarquista,
Vítima da revolução republicana...
Frustrados nos seus ideais,
às escuras, como um peregrino,
na companhia da esposa
e de iniciante família,
fugiram para o Brasil.

Eis o retrato
do avô que não conheci.
Imigrante por circunstâncias políticas,
revolucionárias...
Um herói sem medalhas,
um desbravador de três sertões no Brasil,
um guerreiro do machado e da enxada
nos tempos dos cafezais.

Sabe-se que foi um lutador:
De servente de pedreiro a condutor de bondes...
colono nos cafezais paulista,
sitiante próspero em terras paranaense.

Um homem de refinada cultura,
de extrema vocação artística.
Um músico instrumentista impecável,
amante da guitarra, do fado e dos livros.
Pai exemplar de numerosa prole.

Eis o retrato do avô que não conheci
na moldura de quase um século.
Uma relíquia histórica,
um semblante sério sem sorriso,
com o meu olhar fixo no seu olhar...
Sinto-me herdeiro da mesma luta,
numa batalha que ainda mal começou.